A mendicância equivocada

Lembro de uma cena observada recentemente, quando da saída de um estabelecimento bancário, em que uma mulher com duas crianças pequenas que estavam próximos à porta daquela instituição, suplicavam uma esmola a todos os transeuntes que passavam, com os repetidos peditórios de praxe.  E pude observar por alguns instantes, sem que ela percebesse, o comportamento artificial e o modo como tratava as crianças para seus objetivos. Uma cena que identifiquei ser habitual por parte daquela mulher, aparentemente forte e saudável, com as crianças que dizia serem seus filhos. Fiquei então a refletir sobre a prática danosa e até viciosa da mendicância, da forma como estava sendo feita, já que percebi ser contumaz tal atitude, sempre da mesma forma, há bastante tempo.

Ainda que reconheçamos as necessidades porque muitos certamente passam e o cuidado que devemos ter em não nos precipitarmos em julgamentos impróprios, com a devida cautela; há que se considerar que tal prática, como o caso a que me refiro, muitas vezes denotam um hábito pernicioso que reflete a equivocada opção pelo menor esforço como meio de sobrevivência, ao invés do trabalho dignificante, que este exige sacrifícios e força de vontade. Além disso, considerando o péssimo exemplo para com as crianças que se acostumam, por imposição, neste caso e muitos outros, com a banalização de um ato vergonhoso e contrário ao exercício de cidadania que deve reger todas as pessoas, principalmente com relação às crianças e sua formação moral-educacional.

E, nesse mesmo contexto, logo também lembrei, até por associação de idéia, de outro fato ocorrido há algum tempo atrás, no centro da cidade; em que presenciei uma mulher, já de cabelos grisalhos, pedindo esmola aos transeuntes, quando então apareceu um homem que a chamou exclamando pelo nome (de que não lembro) e em tom acintoso perguntou como estavam seus parentes, sua casa e o gado que criava (!) ao que ela, incontinenti, saiu apressadamente, evidentemente procurando fugir das perguntas e daquela situação… Logo a seguir o homem que fizera as perguntas, confirmou que conhecia aquela mulher e que a mesma realmente morava com parentes, na periferia da região metropolitana e possuía uma casa com terreno onde criava uma vaca e outros animais. O que deixa bem claro mais um caso de inconveniente prática da mendicância indevida.

Por isso, acredito que a melhor forma de ajudar pessoas carentes em geral, seja por meio de grupos ou associações idôneas e organizadas, em que se busca convenientemente dar assistência à pessoas ou comunidades, com campanhas periódicas ou permanentes, tal como acontece em muitos grupos religiosos de todas as formas de crenças, ou entidades públicas e privadas. E afirmo como exemplo a “Fraternidade Espírita Francisco Peixoto Lins” (Peixotinho), situada no bairro de Boa Viagem, Recife-PE; de que sou freqüentador e partícipe. E em que há, além da atividade-fim a que se destina, várias formas de ajuda às comunidades carentes, permanentemente, por intermédio de pessoas e grupos voluntários daquela casa, como a assistência médica gratuita, apoio ao ensino escolar como ‘reforço’; distribuição de medicamentos, alimentos, roupas e outros materiais, além de atividades educacionais interativas de artes, entre outras, para crianças e jovens. Tudo de forma bem organizada e idônea, com o devido controle e seriedade e em que se preconiza o exercício de cidadania e a educação moral – espiritual.

É preciso enfatizar que, como em tudo que pensamos, idealizamos e fazemos, há que se ter o bom senso e a devida reflexão, para não incorrermos no julgamento frio e insensível de forma generalizada, em tudo o mais. Concluindo este raciocínio, vale repetir o que disse em texto anteriormente publicado (Doação – Esmola) e ora destaco sublinhando: “… Mas, ainda assim, convém salientar o grande número de pedintes que se viciam nessa aviltante prática, induzidos pela facilidade contrária ao compromisso de um trabalho regular, responsável, alguns até fingindo-se de necessitados; o que torna aqueles que contribuem com esmolas, quase sempre, um incentivador desse flagelo humano, social (ainda que inconscientemente). E nesse contexto é oportuno lembrar a criativa e cidadã preocupação do cancioneiro popular Luiz Gonzaga, versejando em uma de suas maravilhosas canções – “Vozes da Seca”- “… Mas doutor uma esmola a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão …”

Devaldo Teixeira de Araújo.

https://blogdoteixeira.com/  #   devaldo@hotlink.com.br

[Autorizada a divulgação desde que respeitadas a integridade e autoria do texto]

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